Artigo: Nova ciência para nova agricultura

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Cleber Oliveira Soares

Diretor executivo de Inovação e Tecnologia da Empresa Brasileira de Pesquisa agropecuária (Embrapa)

Os maiores desafios da ciência cada vez mais incluem compreender o que nos reserva o futuro para fazer as apostas certas no presente.

Se as transformações na agropecuária brasileira nos últimos 40 anos ocorreram de forma vigorosa e em grande velocidade, o ritmo do ciclo de mudanças está ainda mais acelerado e as opções se ampliaram. Hoje, a celeridade das transformações nas cadeias de valor nos impõe uma nova dinâmica.

Quem imaginaria que o Brasil passaria tão rapidamente de importador de quase todo alimento que consumia para um dos principais players no mercado global de alimentos? Há não muitos anos, comer frango só em ocasião de festas ou na canja para enfermos. Quem saberia, há cinco anos, que a Alemanha produziria fibras a partir do lixo, enquanto algumas nações gerariam proteínas do cultivo de algas em tanques artificiais, competindo diretamente com produtos agrícolas? E sobre o futuro próximo? Em 2020, o pé de alface ou a saca de soja terão a mesma importância e preços de hoje?

Estaremos mais perto das respostas para questões de agricultura e alimentação, quanto mais próximos estivermos da inovação. A lógica produtiva está em constante transformação. Novidades na ciência surgem a cada dia. Está cada vez mais caro gerar e colocar ativos tecnológicos e produtos no mercado. A inovação e os negócios – no sentido amplo da palavra – têm de acompanhar a evolução e serem céleres para promover entregas e adoção de ativos tecnológicos, conhecimento e informação.

Estamos em um momento ímpar de um novo ciclo de, permanentemente, olhar para o futuro, fazer escolhas e posicionar as instituições de ciência e tecnologia em um horizonte que se transforma sempre. A inovação se tornou, definitivamente, diretriz vital para o reposicionamento e fortalecimento da ciência brasileira, como protagonista do Agronegócio mundial, entregando resultados ao setor, ajudando a diversificar a base produtiva, a agregar valor, gerar renda, promover relevância para as instituições e valor e impactos para toda a sociedade.

Não basta mais gerar ciência. Ela tem que, rapidamente, se tornar inovação na cadeia produtiva. Para isso, a aplicação de inteligência estratégica – da captação de sinais e tendências à avaliação de impacto dos ativos tecnológicos – tem o papel fundamental de trazer contemporaneidade na inovação para o campo. Parcerias públicas e privadas, por exemplo, são instrumentos valiosos nesse novo horizonte. Sobretudo em um país como o Brasil, em que as cadeias de valor do alimento situam-se no centro dinâmico do seu desenvolvimento.

O mundo espera que o Cone Sul seja responsável por abastecer 40% da demanda global de alimentos até 2050. Olhando como oportunidade, é um grande negócio. Independentemente de escala e tamanho, a agropecuária brasileira tem tudo para aumentar sua grande parcela de contribuição. A Embrapa, como instituição âncora para a evolução da agropecuária tropical, está atenta a esse futuro e busca, por meio de nova institucionalidade, conectar inovação como elemento chave para a agropecuária do futuro.

Nesse contexto, a EmbrapaTec, subsidiária integral da Embrapa, hoje em discussão no Congresso Nacional, poderá dar fôlego e dinâmica a novo modelo de inovação para a agropecuária, aumentando e dando agilidade à aproximação entre a ciência e os atores das cadeias produtivas, dos parceiros e dos mercados, e colocando-a em posição de protagonismo da agropecuária mundial. Ela deverá, ainda, contribuir para ampliar o retorno do investimento em ciência, fortalecer seu orçamento, catalisar novas estruturas e modelos de negócios, além de reposicionar alianças e parcerias estratégicas direcionadas à realidade do mundo rural.

O futuro das instituições depende das estratégias e escolhas presentes. Precisamos ampliar a conexão das instituições de ciência e tecnologia com formuladores de políticas públicas, com tomadores de decisão, com a realidade dos mercados e da sociedade e, sobretudo, com atores-chave das cadeias de valor, principalmente com o produtor rural, nosso mais importante cliente.

É vital transformar ideias e ativos em inovação e valor para a sociedade. A inovação, os negócios e a transformação tecnológica não são atividades triviais. Devemos exercitar estratégias e competências em marketing, parcerias e negócios, inovação, gestão de ativos, inclusão e comunicação tecnológica, empreendedorismo. Buscar oportunidades de inovação aberta e de cocriação de soluções por meio de parcerias, pois ninguém detém todos os conhecimentos. Só assim estaremos próximos da promoção de impacto que todos almejam.

É preciso acreditar que a inovação e as tecnologias contribuirão para a transformação pela qual a agropecuária vem passando e deverá passar nos próximos anos, ajudando a colocá-la em patamares que a sociedade almeja e o Brasil merece. Os desafios são muito complexos, mas serão o combustível para a evolução da nova agricultura.